Monday, November 23, 2009

Gabriel Perna de Pau

Seu esporte favorito era de equipe, o futebol. Começou nas peladas durante o recreio na escola, com frascos de iogurte, bolas de meia ou até pedaços de papel. Evoluindo para as partidas em equipe nas aulas de educação física aonde o seu fracasso no esporte se tornava evidente devido a sua pouca habilidade com os gambitos. Ficava sempre de reserva e voltava chorando pra casa por ter sido excluído “injustamente” do time. Como seu pai não gostava nem um pouco de futebol, se contentava em dar seus chutes de vez em quando dentro do seu apartamento ou em algum parque num fim de semana de sol. E com o tempo, essa paixão pelo futebol e o gosto cada vez mais intenso por jogos, foi lhe mostrando um pouco sobre a personalidade das pessoas, e como lidar com elas.

Dentro de um jogo existe um mundo ficcional, aonde há regras iguais para todos e objetivos bem definidos. Através dessa ótica, para Gabriel o jogo se tornou uma ferramenta de observação poderosa sobre a interação entre diferentes tipos de personalidade, elas se evidenciavam nessas disputas. Partindo dessa premissa, era possível observar quatro estereótipos básicos.

O NARCISINHO: habilidoso auto confiante que tem ciência da sua superioridade no grupo e se vale disso pra tentar resolver o jogo sozinho. Mesmo que eventualmente cague o jogo com seu estilo “fominha”, sabe que nada o tiraria de seu trono. Nunca se abala ou chama a atenção de alguém, na cabeça dele o time depende exclusivamente de sua atuação. É esse cara também o ator talentoso que consegue com que simples faltas pareçam tragédias criminosas. Rolar no chão e inventar faltas é com ele mesmo.

O POLÍTICO: passa a maior parte do jogo falando o que os outros companheiros deveriam fazer, ou responsabilizando alguém pelo fracasso da jogada com palavras e expressões enfáticas, pouco amistosas. Na hora de fazer sua parte, quando erra, xinga o time inteiro pela falta de apoio. Esse é o tipo que sempre mente quando há dúvida geral na partida sobre alguma suposta falta, ou uma bola que tenha saído de campo sem ter ficado claro quem tocou por último. Sua maneira agressiva de se impor gera um certo respeito pelos outros, pois suas reclamações com o grupo quase sempre correspondem a realidade do jogo. Mas há enfrentamentos seguidos durante a partida se outro político não concorda com sua posição. Às vezes resultando em violência física.

O CARNEIRINHO: passa o jogo inteirinho pedindo a bola. De habilidade muito pouca ou lamentável, é só mais um pra completar o plantel. Não influi quase nada no resultado da partida porque só vê a bola em momentos onde o acaso resolve espirrá-la em sua direção após alguma dividida. Ou então quando algum político ou narcisinho resolve fazer a boa ação do dia e lhe passar a bola. Esse momento sempre vem acompanhado, poucos segundos depois de brados: “calmou, calmou, passa aqui, na outra tem” na tentativa de fazer o carneirinho se livrar da bola como uma batata quente pra não comprometer o time. Os carneirinhos sempre são os mais paramentados, fardamento completo, incluindo chuteiras de última geração, caneleiras e meias esticadas até o joelho. A teatral cara de mau de quem sabe o que está fazendo também faz parte do fardamento. Quem sabe parecendo um jogador, seja visto como um e levado a sério.

O JOGADOR: aquele que participa do jogo sem falar nada, pode ser bom ou ruim de bola. Entende que o trabalho em equipe no jogo faz a diferença. É um bom observador, quando os velhos jogam, consegue entender porque aqueles Homer Simpsons bebedores de cerveja fora de forma, sempre conseguem ganhar partidas contra a gurizada cheia de gás. Fazem todos de bobo correndo atrás da bola, enquanto ela passa de pé em pé no campo entre todos os velhacos até entrar no gol. Realmente humilhante! Mas impressionante como ninguém percebe que o segredo está em dar peso igual de participação a todos os jogadores em campo. O JOGADOR sabe disso. No ataque faz tabelas com seus companheiros, jogadas “1-2”, e na defesa está sempre marcando alguém. Nunca fica parado. Incentiva os companheiros, elogiando seus acertos, agradece os bons passes e se desculpa por seus erros.

Mas para quase todos esses estereótipos, ganhar o jogo era essencial. E era isso que Gabriel não entendia. Porque ganhar o jogo era tão importante? Talvez porque não tivesse um pai “boleiro” em casa que comemorasse a vitória de seu time como motivo de orgulho próprio, ou algo extraordinário. Talvez nem seja este o ponto, porque torcer por um time é legal, ganhar uma partida é legal, representa a superação de um grupo. A questão é a dimensão da importância da vitória, fazendo dela o foco do jogo, e não o jogo em si e a capacidade de integração dos participantes. Para Gabriel desde cedo isso tudo era evidente, a necessidade da união no grupo gerava uma felicidade imensa. Sabia que a vitória não era necessária para ser visto e se sentir integrado, porque era um “carneirinho”. Só o fato de vestir aquela camisa 4 da zaga, em uma substituição de 3 minutos, na frente de todo o colégio durante as olimpíadas internas, faziam seus olhos brilharem de entusiasmo. Mesmo sabendo racionalmente que o botaram na linha apenas pela sua espera na lateral o jogo inteiro, e que provavelmente faria inúmeras patuscadas com a bola, aquele era o momento em que podia esforçar-se ao máximo para tentar fazer alguma diferença, e ser visto.

Mas nunca surtia o efeito desejado. Naquela partida bastou ele entrar em campo para o time adversário passar pela zaga como quem dança no salão da paróquia. Outra vez não conseguiu ser reconhecido pelo seu esforço. Maldito carma esse! Gostar tanto de futebol e ser um pereba monumental! Enquanto os colegas continuavam a competir entre si constantemente, para trazer mérito e atenção a seus feitos, Gabriel, frustrado; passou a competir consigo mesmo. Observando a partir daí quase sempre sozinho, seus erros e acertos na vida. Sem desperdiçar seu tempo apontando erros alheios ou vangloriando-se de seus feitos, visto que isso trazia a desunião que ele sempre percebeu nos jogos de equipe, gerando o egoísmo da glória dos vencedores que passam a não conseguir dividir os méritos.

Após o final desse jogo em que fora escurraçado em campo pelos colegas na frente do colégio inteiro, sua volta pra casa foi dramática. Parecia que o mundo tinha acabado. Já era um tatu de entupido e tímido, seus únicos amigos eram por acaso outros 2 carneirinhos. Não tão ruins como ele, mas os únicos que ainda lhe passariam a bola. Porque o que mais doía era que a partir de agora, o mundo (o colégio inteiro), jamais lhe passaria a bola ou lhe daria alguma chance no time.

E em meio a tanto choro e soluço, aquele pequeno bambuzinho de óculos redondos foi acalmado por sua avó, que tinha o dom de transmitir tranqüilidade usando uma fala sempre mansa e carinhosa. Sabendo disso sua mãe levou-o até ela, e foi nesse episódio que ouviu a história de seu bisavô. Outro fanático por futebol, torcia doentemente pelo Internacional. Como ninguém em sua família se interessava pelo esporte, Gabriel fica curioso e pergunta porque seu bisavô torcia para este time. Naquela época ainda haviam muitas disputas raciais veladas e indiretas. Mas isso se refletia de maneira mais transparente nos times, já que eram grupos fechados em que o racismo poderia ser mantido abertamente. O Internacional foi criado por jogadores que não foram aceitos no Grêmio por motivos raciais. Nasceu para ser o time do povo, com valores mais democráticos. Inclusive o estádio atual do clube fora construído com o auxílio financeiro de uma grande vaquinha entre os associados. O Grêmio era o único time existente na cidade naquela época, criado por descendentes europeus. Futebol era coisa da elite. Mas na medida em que foi se popularizando, todas as camadas sociais absorveram o esporte e a questão do racismo se apagou pouco tempo depois. Era uma situação exclusivamente relativa àquela época. Atualmente julgar um time por esses valores não faria nenhum sentido. Mas Gabriel se identificou de imediato, seu bisavô de pele escura torcendo para um time defensor dos oprimidos da época, colocou em seu imaginário o Internacional não só como um clube, mas um bode expiatório para suas aspirações de igualdade. Seu avô que torcia discretamente para o Grêmio tentou o convencer que o azul era mais bonito e coisa e tal, mas já era tarde. A cabeça estava feita e o choro contido. Sempre se sentia orgulhoso do fato de ter escolhido o time do coração através dos próprios critérios, sem a influência forçada daquelas famílias em que um parente por semana seqüestra a criança, enfia-lhe a camisa do time que torce e tenta o induzir como uma marionete.

….continua


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