O Rei tá nu
Crônica publicada no “Primeiro Jornal” de Colombo/PR - em 24/11/09

Ilustração: Daniel Neves
Eu nunca entendi o propósito da arte contemporânea quando tenta se limitar somente ao conceito das obras. Não que seja ruim o fato de tentar ser original, é realmente surpreendente ver algo novo sendo feito. Mas que além de novo, também venha acompanhado de habilidade e esforço de um trabalho contínuo através de alguma técnica artística. Caso contrário a estética é deixada completamente de lado e o resultado acaba se tornando efêmero. Em outra abordagem seria como imaginar a arte apenas como instrumento de transformação política, aonde o que interessa mesmo é polemizar sobre as relações humanas criando algum tipo de mensagem dirigida. Sempre pensei a arte como algo despretensioso, sem alvos a serem atingidos. Excluindo toda a necessidade de provar alguma teoria através dela, porque aí acredito que estaríamos invadindo outros campos do conhecimento. Publicidade ideológica talvez.
O belo necessariamente está ligado a própria natureza, porque simplesmente sem ela nada existiria, ao observarmos a natureza percebemos sempre uma certa racionalidade de composição, formas e cores na sua estrutura orgânica. Que mesmo sendo imperfeita, num contexto geral é equilibrada. Uma árvore tem seus galhos imperfeitos com muitas irregularidades, mas ao visualizar toda a copa, percebemos que o conjunto se torna agradável aos olhos na composição .E se não há nada mais belo que a própria natureza, nada mais evidente e instigante ao artista que a vontade de representá-la a sua maneira diversas vezes até que use o conhecimento adquirido no esforço de representar figuramente, em criar então abstrações metafóricas ou não, e desenvolver sua própria estética com fundamentação prática.
Quem já não viu inúmeras obras de arte contemporânea do tipo “objetos rotulados” acompanhadas de textos críticos muito elaborados e autoconscientes sobre seu conceito? O que era pra ser uma ironia de Marcel Duschamp em relação a sua época, se transformou numa piada hoje. Até ele mesmo ironicamente dizia que fazia lixo, a intenção era dar a entender que arte poderia não ser vista apenas com os olhos, chamava a arte até então de retinal. Com certeza quebrando muitos paradigmas de sua época e gerando uma idéia de que a arte não precisa necessariamente seguir uma linha de vanguardas sucessivas. Mas sim, valorizar o esforço, combinado ao talento artístico. Duchamp também sabia pintar e fazia seus quadros, no mesmo nível de seus colegas de época. Suas obras ready-mades posteriores nada mais eram que apenas melancias penduradas no pescoço dizendo “ei, eu também mereço um espaço no meio artístico”. Dando valor artístico a simples objetos com sucesso, ele conseguiu provar que a classe estava se submetendo a exploração comercial especulativa como qualquer outro mercado. Realmente só um gênio do humor faz um urinol valer muita coisa, mas com certeza a piada vale mais que a obra.
O que me parece é que a partir daí começa a surgir uma confusão bastante evidente entre filosofia e arte. A filosofia busca entender a essência do ser, buscando as diversas visões sobre um mesmo ponto. Mas a arte além de buscar essa individualidade da visão do artista, também buscou sempre a beleza, a estética agradável que como disse anteriormente, tem referências a própria natureza, e a um treino contínuo do olhar sobre ela. No momento em que a arte passa a focar apenas o mérito aos conceitos de suas obras, ela passa a buscar apenas filosofia, tenta ser o que não é, fugindo de sua proposta primordial.
Já conheci muitos artistas que não estudam a fundo nenhuma técnica, colocam todo seu esforço apenas na originalidade de suas obras para então levá-las a algum museu, as pomposas igrejas dogmáticas da arte. Alimentando um mercado aonde só o que importa é o sucesso momentâneo gerado através dessa polemização. Sucesso esse que sempre é repentino e esquecido.
Mesmo que se faça o mais do mesmo e não crie nada novo, ainda conserva-se o verdadeiro papel do artista puro que exerce a profissão por prazer, e obtém o reconhecimento popular. Não quero limitar ou condenar a vontade de qualquer ser humano a fazer qualquer tipo de abstração instantânea que lhe vem na cabeça e considerar como arte. Todo tipo de expressão é válida, porque é única! O que eu acho estranho mesmo é a inversão de valores que anda acontecendo. Ninguém é inculto por não “entender” uma obra, arte apenas se sente, não é lógica ou cheia de códigos pra se racionalizar, trata-se apenas de um simples combinado do perfil do artista e seu contexto. Quem racionaliza a arte está em outro ramo, faz desenho industrial, propaganda, tenta vender um produto ou idéia através de uma imagem. Portanto se você não gostou daquela obra que viu no museu, não tenha mais vergonha disso. Marcel Duschamp mesmo já dizia: “o espectador faz a obra.”
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Dicas de filmes que discutem o assunto:
Escola de arte muito louca (art school confidential) - EUA 2006
http://www.revistacinetica.com.br/artschool.htm
O Mestre da Vida (local color) - EUA 2006
http://cineminha.uol.com.br/filme.cfm?id=191112
Entrevista sobre o livro do Luciano Trigo - A Grande Feira - uma reação ao vale tudo na arte contemporânea
http://video.globo.com/Videos/Player/Noticias/0,,GIM1167581-7823-JORNALISTA+CRITICA+O+VALETUDO+NA+ARTE+CONTEMPORANEA,00.html
O Rei tá nu!
Hans Christian Andersen
Conta a fábula que existia um rei muito vaidoso que adorava roupas, tinha centenas de pares de sapatos e incontáveis peças de roupa, e nunca estando satisfeito, sempre procurava novidades. Até que certa vez um grupo de espertalhões resolveu se aproveitar da vaidade do rei, chegando a ele com toda reverência falando sobre uma novidade, um tecido mágico invisível que somente as pessoas inteligentes poderiam ver, fazendo com que assim, só as pessoas inteligentes o rodeassem. O rei encantado, imediatamente pediu pra que os espertalhões tecessem um terno desse tecido e pediu ao primeiro ministro para que conferisse o andamento da confecção.
Chegando lá os espertinhos estendem as mãos no ar ostentando “Veja excelência, a beleza do tecido!”. O ministro apavorado ao não ver nada e ter que admitir sua burrice já que lhe fora dito que somente os inteligentes poderiam vê-lo, prontamente elogiou o tecido e relatou ao rei a maravilha que estavam lhe preparando. Em seguida o rei, faceiro, mandara outros dois ministros para que também pudessem testemunhar o fato. Ambos chegaram lá e ao não verem nada, se sentiram mais burros que o primeiro ministro, e com medo de admitir, passaram a também elogiar a beleza do tecido. E com o rei não foi diferente, quando o próprio foi ver o andamento do trabalho e não ver absolutamente nada, certamente não se colocaria em uma posição inferior aos seus ministros inteligentes que já tinham lhe relatado as belezuras daquele tecido maravilhoso.
Até que em uma solenidade, o rei resolve reunir seu povo e anunciar seu novo traje, dizendo que somente os inteligentes poderiam vê-lo. E ao entrar com seu vestido novo, o povo todo lança um “oh” de espanto, todos maravilhados e dizendo como era linda a roupa do rei. Todos eram inteligentes!
No alto de uma árvore, um menino que estava a brincar e completamente a parte dos acontecimentos, ao perceber o rei exibindo sua enorme barriga e vergonhas dependuradas, lança um grito “O rei tá pelado!”
Ao passo que um silêncio de alguns segundos se passa seguido por gritos enfurecidos da multidão. “Menino louco! Menino burro! Não vê a roupa nova do rei! Está querendo desestabilizar o governo! É um subversivo, a serviço das elites!” Com estas palavras agarraram o menino, colocaram-no numa camisa de força e o internaram num manicômio.
Moral da estória: Em terra de cego quem tem um olho não é rei. É doido.