Maconha em Família
Crônica publicada no “Primeiro Jornal” - Colombo/PR - em 08/12/2009
Essa semana um jornal de grande circulação nacional levantou a questão do uso de maconha em família. Pais que fumam com seus filhos pela conveniência de acharem que estão tendo uma relação mais aberta, e assim poderem controlar de alguma forma o risco do uso exagerado e a exposição do usuário na rua sujeito a uma abordagem policial. Os pais alegam que uma opressão rígida por parte deles geraria um sentimento de rebeldia maior que impulsionaria os jovens a tomarem esse caminho mais perigoso. E no conforto quase inatingível de casa estariam a salvo e passíveis de um diálogo mais aberto a respeito do uso para que pudessem abandonar aos poucos o hábito.
A princípio parece uma atitude interessante e positiva, mas alguns psiquiatras alegam que a atitude incentiva o uso contínuo e coloca pais e filhos em pé de igualdade como amigos. E pais devem exercer o papel de pais, o diálogo deve ser aberto sim, sem repressões, mas explicando exaustivamente as razões e as conseqüências do uso da droga para que o jovem tenha uma perspectiva melhor de seu próprio futuro.
As razões que levam um adolescente a fumar são geralmente as mesmas: tentativa de se incluir em algum grupo, alívio temporário para algum tipo de depressão ou simplesmente curiosidade pelo efeito da droga. Aliás, essa curiosidade é inicialmente presente em todos os usuários, é a mesma curiosidade de se experimentar uma sensação nova qualquer que atitudes positivas como a prática do esporte preferido trazem ao corpo através da liberação de endorfina. Interessante seria usar essa coragem que o leva a transgredir leis e correr riscos, em benefício próprio do usuário. Na prática de esportes radicais por exemplo, as sensações se equivaleriam e aquele usuário deprimido que fumava para anestesiar seu tempo, o utilizaria de forma mais saudável trazendo um bem para o corpo em seu tempo livre. E aquele que tenta se incluir em algum grupo, porque não aprender a tocar algum instrumento musical ou participar de alguma oficina de aprendizado artístico? Além de fazer novos amigos, com certeza podem surgir aí sensações muito boas que não trazem o peso na consciência de estar condenando o próprio corpo e mente a prováveis danos futuros.
A liberação parcial do uso da maconha ainda parece distante em um país como o nosso, não conseguimos nem lidar com o uso de álcool, que é uma droga lícita mas continua causando tragédias no trânsito pelo seu abuso. Países como Argentina e Holanda, que tomaram medidas de descriminalização da maconha, o fazem por ter uma sociedade mais estruturada e uma valorização da educação mais enraizada e praticada em suas culturas. Mesmo que pareça viável a liberação para uma minoria que defende o uso moderado, ainda parece justo fazer o que é melhor para todos e dar mais foco a educação.
Causas e Efeitos: o princípio ativo da maconha é uma molécula chamada THC, que se liga a receptores canabinóides nas terminações nervosas do cérebro. As regiões com maior presença desses receptores são o sistema límbico, o hipocampo e o cerebelo. Estas regiões estão ligadas à sensação de prazer, à memorização e à coordenação motora. Por isso essas funções são afetadas durante a “viagem”. Os olhos ficam vermelhos devido a dilatação dos vasos sanguíneos na região da conjuntiva, a parte branca do olho, pelo relaxamento dos músculos ao redor desses vasos que o THC provoca. A tosse é outro sintoma presente, o organismo cria um muco para tratar a irritação que a fumaça provoca na garganta. Ficando mais propenso a inflamações e doenças no local. A boca seca é resultado da ação do THC nas glândulas salivares que mantém a boca molhada. Ele “rouba” o lugar da substância que estimula os neurônios da região. Sem a ordem deles a boca fica seca. E a tão famosa “larica” acontece porque a sensação de saciedade enviada pelo duodeno ao hipotálamo não é realizada enquanto o cérebro está cheio de THC.


