Wednesday, December 9, 2009

Maconha em Família

Crônica publicada no “Primeiro Jornal” - Colombo/PR - em 08/12/2009

Essa semana um jornal de grande circulação nacional levantou a questão do uso de maconha em família. Pais que fumam com seus filhos pela conveniência de acharem que estão tendo uma relação mais aberta, e assim poderem controlar de alguma forma o risco do uso exagerado e a exposição do usuário na rua sujeito a uma abordagem policial. Os pais alegam que uma opressão rígida por parte deles geraria um sentimento de rebeldia maior que impulsionaria os jovens a tomarem esse caminho mais perigoso. E no conforto quase inatingível de casa estariam a salvo e passíveis de um diálogo mais aberto a respeito do uso para que pudessem abandonar aos poucos o hábito.

A princípio parece uma atitude interessante e positiva, mas alguns psiquiatras alegam que a atitude incentiva o uso contínuo e coloca pais e filhos em pé de igualdade como amigos. E pais devem exercer o papel de pais, o diálogo deve ser aberto sim, sem repressões, mas explicando exaustivamente as razões e as conseqüências do uso da droga para que o jovem tenha uma perspectiva melhor de seu próprio futuro.

As razões que levam um adolescente a fumar são geralmente as mesmas: tentativa de se incluir em algum grupo, alívio temporário para algum tipo de depressão ou simplesmente curiosidade pelo efeito da droga. Aliás, essa curiosidade é inicialmente presente em todos os usuários, é a mesma curiosidade de se experimentar uma sensação nova qualquer que atitudes positivas como a prática do esporte preferido trazem ao corpo através da liberação de endorfina. Interessante seria usar essa coragem que o leva a transgredir leis e correr riscos, em benefício próprio do usuário. Na prática de esportes radicais por exemplo, as sensações se equivaleriam e aquele usuário deprimido que fumava para anestesiar seu tempo, o utilizaria de forma mais saudável trazendo um bem para o corpo em seu tempo livre. E aquele que tenta se incluir em algum grupo, porque não aprender a tocar algum instrumento musical ou participar de alguma oficina de aprendizado artístico? Além de fazer novos amigos, com certeza podem surgir aí sensações muito boas que não trazem o peso na consciência de estar condenando o próprio corpo e mente a prováveis danos futuros.

A liberação parcial do uso da maconha ainda parece distante em um país como o nosso, não conseguimos nem lidar com o uso de álcool, que é uma droga lícita mas continua causando tragédias no trânsito pelo seu abuso. Países como Argentina e Holanda, que tomaram medidas de descriminalização da maconha, o fazem por ter uma sociedade mais estruturada e uma valorização da educação mais enraizada e praticada em suas culturas. Mesmo que pareça viável a liberação para uma minoria que defende o uso moderado, ainda parece justo fazer o que é melhor para todos e dar mais foco a educação.

Causas e Efeitos: o princípio ativo da maconha é uma molécula chamada THC, que se liga a receptores canabinóides nas terminações nervosas do cérebro. As regiões com maior presença desses receptores são o sistema límbico, o hipocampo e o cerebelo. Estas regiões estão ligadas à sensação de prazer, à memorização e à coordenação motora. Por isso essas funções são afetadas durante a “viagem”. Os olhos ficam vermelhos devido a dilatação dos vasos sanguíneos na região da conjuntiva, a parte branca do olho, pelo relaxamento dos músculos ao redor desses vasos que o THC provoca. A tosse é outro sintoma presente, o organismo cria um muco para tratar a irritação que a fumaça provoca na garganta. Ficando mais propenso a inflamações e doenças no local. A boca seca é resultado da ação do THC nas glândulas salivares que mantém a boca molhada. Ele “rouba” o lugar da substância que estimula os neurônios da região. Sem a ordem deles a boca fica seca. E a tão famosa “larica” acontece porque a sensação de saciedade enviada pelo duodeno ao hipotálamo não é realizada enquanto o cérebro está cheio de THC.

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Thursday, November 26, 2009

Sem Certezas

O passado foi escrito a tinta,

mas o presente vou escrevendo a lápis

para a borracha da dúvida

construir a consciência e tranquilidade

de um futuro incerto

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Pros meus amigos que já nasceram velhos e se permitem não ter muitas certezas

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Tuesday, November 24, 2009

Comédia Romântica

Argumento: Renato Calliari e Roberto Schunemann

Texto: Renato Calliari

O cara liga pro camarada num sábado a noite pra combinar alguma festa como usualmente faz:

- E aí loco, qual é a boa de hoje?

- Pô velho, eu tava bem a fim de sair, mas minha guria não quer, tá de TPM sabe como é né… uma hora atrás eu convidei pra fazer alguma coisa e ela sugeriu até escalar uma montanha. Me embrenhei todo faceiro no quartinho lá de trás procurando a bagulhada de camping, passa meia hora e ela rançando desiste porque a gente nunca fica em casa no fim de semana, sempre saindo com os amigos, nunca mais vimos um filminho e coisa e tal. Daí na hora me veio aquele flashback horripilante de mais uma sessão pipoca com comédia romântica no sofá de casa. Eu dormindo na metade do filme e ela me acordando porque to perdendo a melhor parte, que geralmente é quando o cara volta atrás dela rastejando prometendo nunca mais repetir algum comportamento masculino padrão.

- Do tipo se recusar a alugar uma comédia romântica na locadora?

- haha, sim, ou de nunca tentar uma negociação em uma TPM! Claro que no filme os motivos tendem a ser mais pseudo-dramáticos do tipo “ele via ela todo dia no trabalho de cabelo preso e óculos e quando encontra ela por acaso vestida pra matar numa festa da empresa descobre que é uma gostosa e se apaixona.”

- É, claro que esses roteiros só podem ser escritos por uma mulher inconsciente do fato que qualquer homem identificaria uma gostosa até dentro de um macacão de astronauta a 50 metros de distância.

- Porque ainda estamos falando disso?

- Alimentando o inconsciente para ter pesadelos depois com a tua mulher fingindo orgasmos num restaurante tipo Meg Ryan ou Mia Farrow. Ui ui ui

- Hoje quase rolou uma cena de comédia romântica, a tarde fui ao shopping com a Carla e na praça de alimentação dou de cara com a Samantiiiiiiinha cara, te lembra dela??

- Nooooossa, claro, impossível não lembrar das vezes em que a gente te via trovando no ouvido dela em todos os churrascos da galera enquanto todo mundo te tirava pra otário, já que o Edilson sempre acabava levando ela embora pra casa naquele carro dele que parecia um OVNI com iluminação natalina. Mas que biscate hein meu!

- Tá …mas era muito gata!

- Ah sim, até o Eduardo, aquele professor de matemática vesgo sabe? Um dia chegou a comentar de canto comigo sobre os figurinos temáticos da Samantinha. Segunda feira – vermelho paixão pega-fogo, terça – roxo matador vem-que-te-quero, quarta – branco semi-transparente sobre calcinha atolada (bah quando ela usava essa eu tinha medo de me levantar e todo mundo perceber o que eu tava imaginando). E os outros dias tu sabe né… eram os vestidos curtinhos coloridos tipo arara brasileira.

- Era um desse que ela usava no shopping, um bem justinho todo floreado, e de saltão. Mas o mais engraçado foi que dessa vez quem mais se entusiasmou foi ela ao me ver. Abriu aquele sorrisão e disse bem alto “NÃO ACREDITO… MARCELÃO!!! Como você tá, HOMEM??? ”. Ela nunca tinha me chamado assim antes, aliás ela sempre perguntava meu nome toda vez que me revia. Perguntou do trabalho, se eu ainda vejo alguns ex-colegas nossos, interessadíssima! E ainda por cima fez questão de me passar o número dela. Que era pra eu procurá-la, que tinha muita coisa pra contar, com um ar de safada mesmo. Foi nessa hora que eu lembrei da TPM da Carla e do maremoto que isso iria causar. Sim porque ainda de quebra a Samantinha só foi perguntar quem era a fêmea calada com a mão direita estrategicamente apoiada no meu ombro com aquele anel de noivado gritando “sai piranha” quando tava indo embora.

- Tá vendo, tem mulher que não perde tempo quando se trata de por a prova o próprio poder de sedução. Ela nunca te quis, e agora só te provoca pra competir com a tua guria. A carne é fraca e ela sabe disso, cuidado hein parceiro!

- Claro cara, eu nunca cairia nessa, tu sabe que eu sou apaixonadaço pela Carla né! Mas é que isso é recorrente mesmo, não é a primeira vez que me acontece um assédio quando tô engatado com alguém.

- Sim, comigo me acontece direto, ainda mais quando elas vêem alguma espécie de anel de compromisso, aí é batata! Sei lá, vai ver elas imaginam que esse chinelão aqui tem um belo futuro a oferecer, já que alguém se interessou tanto a ponto de querer se engatar.

- É o velho jogo das tentações né! Imagina então tu numa partida de futebol, tu e a Carla de um lado, ela de goleiro-linha. No outro time, 6 gurias do colégio, com a Samantinha de centroavante. Na lateral do gramado eu como juiz e as gêmeas como bandeirinhas.

- hahaha a Melina e a Milena?

- Sim, as gordinhas, que é pra ajudar a Carla e equilibrar a partida, já que elas com certeza vão marcar tudo a teu favor porque odeiam as patricinhas! Cada gol marcado a teu favor sai uma das gurias do outro time. E quem marcar algum gol na tua meta tem direito a uma noite contigo. O duro mesmo é não cair na tentação de entregar o jogo, se não fosse o fato do teu desespero ao saber que a cobradora oficial de faltas do time delas é a Silene

- Hahaha ah é, tu tá de sacanagem Marquinhos! A última lembrança que eu tenho daquela mina de suvacão peludo foi numa roda no meio da gurizada depois da aula de educação física toda suada largando um peido e rindo sozinha. Nem pensar!

- Bom, como eu falei, tem que ter um equilíbrio, senão só imagino a tua cara de salafrário pra cima da tua guria

“- ih morzinho, mais um golzinho tomado, vamo pra cima delas!”

- Nossa, a Carla iria com caneleira de aço sem dúvida, seria expulsa aos 15 min. Caralho…a gente só fala merda hein?

- Bom, não sou eu que vou ficar em casa vendo a Sandra Bullock com o centésimo penteado diferente.

- Ah vai te fudê… Seguinte, deu vontade de jogar agora, vamos convocar a gurizada pra uma peladinha agora as 8?

- Vamo, tô passando aí 7 e meia…. tá mas… e todo aquele papo de TPM da tua mulher e que não da pra contrariar?

- Ah, vou fazer que nem nos filmes, depois do jogo eu prometo nunca mais contrariar ela na TPM, acompanhado de umas flores, um pote de sorvete, o último lançamento meloso da locadora e uma cara de cachorro sem dono. A única diferença é que o filme acaba e tu não fica sabendo se o cara repetiu a chantagenzinha barata, já na vida real…

- Tu não vale nada! Falou, até mais.

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Monday, November 23, 2009

O Rei tá nu

Crônica publicada no “Primeiro Jornal” de Colombo/PR - em 24/11/09

dasneves

Ilustração: Daniel Neves

Eu nunca entendi o propósito da arte contemporânea quando tenta se limitar somente ao conceito das obras. Não que seja ruim o fato de tentar ser original, é realmente surpreendente ver algo novo sendo feito. Mas que além de novo, também venha acompanhado de habilidade e esforço de um trabalho contínuo através de alguma técnica artística. Caso contrário a estética é deixada completamente de lado e o resultado acaba se tornando efêmero. Em outra abordagem seria como imaginar a arte apenas como instrumento de transformação política, aonde o que interessa mesmo é polemizar sobre as relações humanas criando algum tipo de mensagem dirigida. Sempre pensei a arte como algo despretensioso, sem alvos a serem atingidos. Excluindo toda a necessidade de provar alguma teoria através dela, porque aí acredito que estaríamos invadindo outros campos do conhecimento. Publicidade ideológica talvez.

O belo necessariamente está ligado a própria natureza, porque simplesmente sem ela nada existiria, ao observarmos a natureza percebemos sempre uma certa racionalidade de composição, formas e cores na sua estrutura orgânica. Que mesmo sendo imperfeita, num contexto geral é equilibrada. Uma árvore tem seus galhos imperfeitos com muitas irregularidades, mas ao visualizar toda a copa, percebemos que o conjunto se torna agradável aos olhos na composição .E se não há nada mais belo que a própria natureza, nada mais evidente e instigante ao artista que a vontade de representá-la a sua maneira diversas vezes até que use o conhecimento adquirido no esforço de representar figuramente, em criar então abstrações metafóricas ou não, e desenvolver sua própria estética com fundamentação prática.

Quem já não viu inúmeras obras de arte contemporânea do tipo “objetos rotulados” acompanhadas de textos críticos muito elaborados e autoconscientes sobre seu conceito? O que era pra ser uma ironia de Marcel Duschamp em relação a sua época, se transformou numa piada hoje. Até ele mesmo ironicamente dizia que fazia lixo, a intenção era dar a entender que arte poderia não ser vista apenas com os olhos, chamava a arte até então de retinal. Com certeza quebrando muitos paradigmas de sua época e gerando uma idéia de que a arte não precisa necessariamente seguir uma linha de vanguardas sucessivas. Mas sim, valorizar o esforço, combinado ao talento artístico. Duchamp também sabia pintar e fazia seus quadros, no mesmo nível de seus colegas de época. Suas obras ready-mades posteriores nada mais eram que apenas melancias penduradas no pescoço dizendo “ei, eu também mereço um espaço no meio artístico”. Dando valor artístico a simples objetos com sucesso, ele conseguiu provar que a classe estava se submetendo a exploração comercial especulativa como qualquer outro mercado. Realmente só um gênio do humor faz um urinol valer muita coisa, mas com certeza a piada vale mais que a obra.

O que me parece é que a partir daí começa a surgir uma confusão bastante evidente entre filosofia e arte. A filosofia busca entender a essência do ser, buscando as diversas visões sobre um mesmo ponto. Mas a arte além de buscar essa individualidade da visão do artista, também buscou sempre a beleza, a estética agradável que como disse anteriormente, tem referências a própria natureza, e a um treino contínuo do olhar sobre ela. No momento em que a arte passa a focar apenas o mérito aos conceitos de suas obras, ela passa a buscar apenas filosofia, tenta ser o que não é, fugindo de sua proposta primordial.

Já conheci muitos artistas que não estudam a fundo nenhuma técnica, colocam todo seu esforço apenas na originalidade de suas obras para então levá-las a algum museu, as pomposas igrejas dogmáticas da arte. Alimentando um mercado  aonde só o que importa é o sucesso momentâneo gerado através dessa polemização. Sucesso esse que sempre é repentino e esquecido.

Mesmo que se faça o mais do mesmo e não crie nada novo, ainda conserva-se o verdadeiro papel do artista puro que exerce a profissão por prazer, e obtém o reconhecimento popular. Não quero limitar ou condenar a vontade de qualquer ser humano a fazer qualquer tipo de abstração instantânea que lhe vem na cabeça e considerar como arte. Todo tipo de expressão é válida, porque é única! O que eu acho estranho mesmo é a inversão de valores que anda acontecendo. Ninguém é inculto por não “entender” uma obra, arte apenas se sente, não é lógica ou cheia de códigos pra se racionalizar, trata-se apenas de um simples combinado do perfil do artista e seu contexto. Quem racionaliza a arte está em outro ramo, faz desenho industrial, propaganda, tenta vender um produto ou idéia através de uma imagem. Portanto se você não gostou daquela obra que viu no museu, não tenha mais vergonha disso. Marcel Duschamp mesmo já dizia: “o espectador faz a obra.”

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Dicas de filmes que discutem o assunto:

Escola de arte muito louca (art school confidential) - EUA 2006

http://www.revistacinetica.com.br/artschool.htm

O Mestre da Vida (local color) - EUA 2006

http://cineminha.uol.com.br/filme.cfm?id=191112

Entrevista sobre o livro do Luciano Trigo - A Grande Feira - uma reação ao vale tudo na arte contemporânea

http://video.globo.com/Videos/Player/Noticias/0,,GIM1167581-7823-JORNALISTA+CRITICA+O+VALETUDO+NA+ARTE+CONTEMPORANEA,00.html

O Rei tá nu!

Hans Christian Andersen

Conta a fábula que existia um rei muito vaidoso que adorava roupas, tinha centenas de pares de sapatos e incontáveis peças de roupa, e nunca estando satisfeito, sempre procurava novidades. Até que certa vez um grupo de espertalhões resolveu se aproveitar da vaidade do rei, chegando a ele com toda reverência falando sobre uma novidade, um tecido mágico invisível que somente as pessoas inteligentes poderiam ver, fazendo com que assim, só as pessoas inteligentes o rodeassem. O rei encantado, imediatamente pediu pra que os espertalhões tecessem um terno desse tecido e pediu ao primeiro ministro para que conferisse o andamento da confecção.

Chegando lá os espertinhos estendem as mãos no ar ostentando “Veja excelência, a beleza do tecido!”. O ministro apavorado ao não ver nada e ter que admitir sua burrice já que lhe fora dito que somente os inteligentes poderiam vê-lo, prontamente elogiou o tecido e relatou ao rei a maravilha que estavam lhe preparando. Em seguida o rei, faceiro, mandara outros dois ministros para que também pudessem testemunhar o fato. Ambos chegaram lá e ao não verem nada, se sentiram mais burros que o primeiro ministro, e com medo de admitir, passaram a também elogiar a beleza do tecido. E com o rei não foi diferente, quando o próprio foi ver o andamento do trabalho e não ver absolutamente nada, certamente não se colocaria em uma posição inferior aos seus ministros inteligentes que já tinham lhe relatado as belezuras daquele tecido maravilhoso.

Até que em uma solenidade, o rei resolve reunir seu povo e anunciar seu novo traje, dizendo que somente os inteligentes poderiam vê-lo. E ao entrar com seu vestido novo, o povo todo lança um “oh” de espanto, todos maravilhados e dizendo como era linda a roupa do rei. Todos eram inteligentes!

No alto de uma árvore, um menino que estava a brincar e completamente a parte dos acontecimentos, ao perceber o rei exibindo sua enorme barriga e vergonhas dependuradas, lança um grito “O rei tá pelado!”

Ao passo que um silêncio de alguns segundos se passa seguido por gritos enfurecidos da multidão. “Menino louco! Menino burro! Não vê a roupa nova do rei! Está querendo desestabilizar o governo! É um subversivo, a serviço das elites!” Com estas palavras agarraram o menino, colocaram-no numa camisa de força e o internaram num manicômio.

Moral da estória: Em terra de cego quem tem um olho não é rei. É doido.

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Gabriel Perna de Pau

Começou nas peladas na escola “cada um por si e deus por todos” com frascos de iogurte, bolas de meia ou pedaços de papel nos intervalos das aulas. Evoluindo para as partidas em equipe nas aulas de educação física onde o seu fracasso no esporte se evidenciava devido a sua pouca habilidade com os gambitos pela sua falta de prática com a bola. Ficava sempre de reserva e voltava chorando pra casa por ter sido excluído “injustamente” do time. Como seu pai não gostava nem um pouco de futebol, se contentava em dar seus chutes de vez em quando em um lugar qualquer ou num fim de semana de sol. E com o tempo essa paixão pelo futebol e o gosto por jogos foi lhe mostrando um pouco sobre a personalidade das pessoas e como lidar com elas.

Dentro de um jogo existe um mundo ficcional, aonde há regras iguais para todos e objetivos bem definidos. Partindo dessa premissa, era possível observar sobretudo nos jogos de equipe, quem respeitava as regras, quem olhava mais o jogo, quem reclamava mais, quem buscava a vitória a qualquer custo e quem não sabia perder, se frustrando a ponto de culpar a equipe, alguém específico ou se martirizando, e pelo quê? Bom era isso que Gabriel não entendia, porque ganhar o jogo era tão importante? Talvez porque não tivesse um pai boleiro em casa que comemorasse a vitória de seu time como motivo de orgulho próprio ou algo extraordinário. Talvez nem seja este o ponto, porque torcer por um time é legal, ganhar uma partida é legal, uma superação de um grupo. A questão é a dimensão da importância da vitória, fazendo dela o foco do jogo, e não o jogo em si e a integração da equipe, sua capacidade de entrosamento. Para Gabriel desde cedo isso tudo era evidente, a necessidade da união no grupo gerava uma felicidade imensa. Coisa de tribo, se sentir visto mesmo, sabia que a vitória não era necessária para ser visto e se sentir integrado, pelo contrário, o alto valor dado a vitória nos jogos isolava os ganhadores e perdedores, e ninguém se dava conta que o que todos buscavam não era o troféu de melhor, e sim o reconhecimento dos outros, ser importante para o grupo. Então enquanto os outros colegas competiam entre si constantemente para trazer mérito e atenção a seus feitos, Gabriel se alegrava em competir consigo mesmo, observando sempre sozinho seus erros e acertos na vida, não desperdiçando seu tempo em apontar erros alheios ou vangloriar-se de seus feitos, visto que isso trazia a desunião que ele sempre observou nos jogos de equipe, gerando o egoísmo da glória dos vencedores que passam a não conseguir dividir os méritos. E certamente, por mais perna de pau que fosse, ele queria era jogar bola e se divertir! Se a glória cabe só a Deus e os fracassos cabem ao crescimento individual de cada um, nada mais coerente que pensar que não importa quem perde ou quem ganha, importa realmente o que é melhor para todos.

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Tuesday, September 1, 2009

Uma reflexão sobre a falta de comunicação no contexto do preconceito social


riscos rápidos de crayon sobre cartolina - 2009

Quando alguém adota como critério relacionar-se apenas com quem sente afinidade por gostos ou interesses  acaba restringindo excessivamente a percepção de mundo por se focar apenas ao que lhe convém. Reforçando através de uma insegurança infalível o próprio discurso, sem permitir-se o risco de errar ou conhecer outras visões do mesmo ponto. O crescimento interior e a sabedoria se desenvolvem através de somas e encaixes dentro daquilo que sabemos pelas nossas experiências e do que podemos aprender quando nos dispomos a abrir canais de comunicação com as pessoas. Permanecer-se fechado e isolado apenas a grupos de afinidade intelectual, social ou situacional, não deixa de ser uma forma de preconceito velado, mais uma maneira arrogante  porém tímida, de separar “quem somos nós” e “quem são eles”. Fundamentado quase sempre através de uma análise superficial precipitada e geralmente carregada de interpretações somente visuais ou repentinas.

Abrindo uma porta de comunicação franca, simplicíssima e sincera, duas pessoas conseguem se ver sem preconceito algum e realizar além de trocas intelectuais, trocas afetivas por estarem genuinamente se vendo como pessoas iguais, podendo aprender na reciprocidade. Se tornando inclusive pessoas melhores em suas próprias estimas por se sentirem vistas socialmente pela simples liberdade de serem ouvidas sem serem condenadas precipitadamente, preconceituosamente.

“A vaidade dos outros nos incomoda, quando fere a nossa própria vaidade” – Nietzche

junho de 2005

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Mudez


Grafite 6B Kill Bill - 2008

sei ver mas n sei dizer
se me explico me desfaço
não há como compreender
o que se passa sob as sombras
de um sentimento a florescer
então falo com os olhos
o que minhas mãos irão fazer
porque o q sinto é pra mim
e o que faço é pra vocês

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Seja Mais Você

Você se torna mais capacitado
a ser amado e amar de fato
quando aprende a ver quem você é.
Assim nunca buscará o que lhe falta
em outra pessoa ou circunstância,
porque já encontra em si mesmo.
E é por esse motivo simples que o amor
verdadeiro não tem alvo, nem direção e nem lógica.
Ele parte naturalmente de você
e encanta quem se dispõe a vê-lo.

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Hiperbólico

quais palavras se aproximariam
à magnitude graciosa do toque suave
de mãos tão delicadas?

quais frases tentariam o fracasso de
alcançar a grandeza celestial
de um sorriso tão simples colossal?

e que poesias montadas com a razão
chegariam aos pés de um
valente e espontâneo coração?

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Monday, August 31, 2009

1 Real

o cidadão pergunta aonde vai 1 real
que ele dá ao pedinte na rua
sera que é pro crack, sera que é cachaça?
mas não se importa se o engravatado político
lhe rouba o voto, a moral, mais 1 real
e ainda faz pirraça

as placas na rua dizem
não dê esmola pra pobre
ensine alguém a pescar
porque aqui nesse país é só político
que tem direito a ter esmola do povo
só porque vira doutor e tem a cara engomada
pega um real de cada um sem pedir
e ninguém não faz nada

eles desunem o povo criando a luta de classes
pra poder escondido roubar mais 1 milhão
rir da sua cara e ainda comprar outro iate
até cego pode ver, tanto imposto pra quê?
E ainda tem gente querendo saber porque
tanto sem vergonha na rua pede dinheiro
que se ganha com trabalho suado.
Porque todo mundo quer ir pra noite também
fazer sua folia, tomar a sua cachaça
e se sentir amado

eu sei que não adianta dar o peixe
e o certo é ensinar a pescar,
mas enquanto você se indigna do sofá com o quadro social
outro engravatado engomado rouba você
e mais um coitado pede gentilmente 1 real,
que você vai negar.
Porque tudo que você realmente faz
é na próxima eleição,
em mais um ladrão bonitinho votar

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